Ele tinha 43 anos e pelo que falam dele - não para ele, porque ele não era de muito falar - nunca o viram ir a um hospital, ou nunca ir a farmácia comprar uma aspirina sequer. Nunca ningúem o viu com uma cara doente ou com uma feição desagradável. Era sempre a mesma face sóbria, porém dura e branca como cera.
Sempre acordava cedo e fazia la suas coisas na sua casa, mas logo saia.
E quando o viam, ja era quase noite feira, e ele com sua cara de cera e de pouco falar com as outras pessoas - somente um leve aceno de cabeça para que soubessem que ele os conhecia a todo.
Era conhecido como o homem que nunca ficou doente.
Um dia como de costume, acordou cedo, fez lá suas coisas e saiu a andar. Mas notou algo estranho no ar - algo que não conseguiu identificar. Não se importou com aquilo e saiu, para as andanças costumeiras.
Mas nesse dia resolveu fazer um caminho diferente. Cortando ali por aquela rua, indo em direção aquela outra, atravessando praças e outros lugares descampados, saiu num lugar pouco movimentado, mas que tinham lá algumas pessoas a andarem.
Então morro abaixo, começou a andar.
Após uns dez minutos de morro abaixo, indo sempre mais rápido que outras pessoas, viu uma pessoa subitamente cair na sua frente. De imediato não se deu muito com aquilo, achando que fora apenas um tropeço e anda mais. Mas vendo que a pessoa a sua frente, fazia movimentos poucos usuais e ainda estava caída no chão, resolveu parar e tentar alguma ajuda.
Viu um rosto pálido de olhos abertos, mas parecendo não ver nada nem ningúem e tendo lá suas contorções. Chegou-se bem perto e ouviu um leve murmúrio: "... por favor, me leve pro hospital..". Ele todo sem jeito e olhando pros lados na vã esperança de ver algúem que pudesse tomar conta daquele caso, pegou a moça nos braços e po-se a caminho do hospital.
Andando com a moça entre os braços, ficou a pensar no que se sera logo de manhã. Aquele algo no ar que não conseguiu identificar. Talvez fosse aquilo, ou algo da sua cabeça.
Foi olhando a moça e suas feições e então aquele algo no ar ficou claro.
Levou ao hospital e ´lá soube que era uma paciente que tinha as vezes uns surtos de sumir e voltar, mas que nunca antes tinha ela caído assim.
Se condoeu tanto da pobre moça - que não tinha parentes e foi deixada ali prar ser tratada, por não se sabe quem - foi o que lhe disseram.
Entã foi-se embora um tanto mais cedo do que de costume.
Mas aquilo ficou tanto na sua cabeça que resolveu voltar ao hospital pra fazer uma visita.
Lá chegando disseram que a moça não estava muito boa, e que ele por não um parente dela, não poderia ir fazer uma visita. Insistiu tanto que apenas se cansou, mas nada conseguiu.
E ficou ali então a pensar e não se reconhecer.
Voltou pra casa e ficou lá a pensar e a olhar a janela.
Passando alguns dias e ainda estando a moça no mesmo estado, teve um estalo dentro da sua cabeça. Soube ser isso uma loucura tremenda, mas iria levar isso a todo custo, pois sua vida era tão banal e tão sem afeto que nada se desse, pelo menos ele iria rir daquele loucura mais tarde.
Com um tiro num lugar que saberia que não seria fatal, foi conduzido ao hospital as pressas. Chegando disse que fora vitima de um assalto, mas que nao queria dar queixa de nada. Ficou então no hospital e pode procurar o quarto da moça que salvara quando caira na rua.
E então a viu e ficou feliz e alegre - embora seu estado não fosse dos melhores.
Falou com ela, mas ela acenou apenas um leve movimento de cabeça. E ele então passou a ficar ali o tempo todo, a cada novo dia inventando algo pra ficar junto dela.
E esse foi então o algo no ar em que agora identificara com clareza - que aconteceria algo muito inusitado e seria tão absurdo que ele nao acreditaria no que iria fazer, só pra estar junto da moça, que nem mesmo sabia o nome.
E esta foi a história do homem que nunca ficou doente - que a partir do instante que a ajudou, desejou ardentemente, ficar doente. Só para estar do lado dela.